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Compaixão – Como ter por si mesmo.

Compaixão – Tradicionalmente, o termo “auto-piedade” tem estado acompanhado de um certo tom de condescendência ou mesmo de vulnerabilidade, o que o posicionou como uma atitude indesejável no processo de enfrentar qualquer adversidade ou contratempo.

Não obstante, nos últimos anos tem surgido uma nova corrente de pensamento que tem resgatado o fato de ter compaixão por si mesmo, como um atributo sorte e desejável, o afastando de sua conotação negativa.

Atualmente entende-se a pena de si mesmo como um conceito ligado à inteligência emocional; através do qual se assume uma posição privilegiada sobre os juízos de valor que cada um de nós constrói a respeito de como pensa, sente e age.

No entanto, o presente artigo trataremos em detalhes o conceito de auto-piedade, e dos benefícios (em geral) que podem desprender-se de sua prática na vida cotidiana.

Ter compaixão por si mesmo: a autocomiseração

A auto-piedade é um conceito complexo que tem despertado interesse no âmbito da Psicologia desde há décadas. Mas quando Jon Kabat-Zinn adaptou o Mindfulness ao alívio de pacientes que tinham dor crônica. Pouco tempo depois, a pena de si mesmo se integrou no seio desta filosofia existencial. Se tornando um assunto sujeito a um estudo científico, especialmente a partir dos primeiros anos do atual século.

A alta auto-piedade se pode descrever, em termos simples, como a decisão de ter compaixão por si mesmo. Neste sentido, da literatura sobre este tópico foram extraídos três fatores-chave: a bondade, a falibilidade e a atenção plena. Em seguida, procedemos a tratá-los com detalhes.

1. Localização

A sociedade em que vivemos tende a valorizar positivamente o fato de ser bom com os outros. Isso inclui uma série de normas sociais de cortesia ou de educação, com as quais agimos de um modo pro-social durante a interação com os outros, preparando-nos para prestar a nossa ajuda para aqueles que possam estar vivendo momentos de necessidade. Esta atitude é recompensa em forma de reconhecimento ou de admiração, e é considerada um exemplo adequado do que deve ser feito (para crianças e adultos).

Não obstante, o mesmo não ocorre quando a bondade deve dirigir-se para nós mesmos. Quando cometemos um erro costumamos agir de modo autopunitivo e cruel, dedicando-nos palavras de amargura, que favorecem um discurso interno que nos arrasta até experiências emocionais intensas e difíceis. É importante lembrar que tudo o que podemos sentir é precedido por um pensamento, por isso que nele reside o germe tanto da emoção como da conduta.

Pense mais em você

Esta forma de tratar a nós mesmos se desenvolve, muitas vezes, com total independência das particularidades da situação detonante. Mesmo no caso de que o infortúnio obedeça à má sorte ou ao papel de terceiras pessoas, continuamos nos assediando com termos destrutivos sobre os quais costumam faltar evidências. Frases como “sou um inútil”, ou “não valho a pena para nada”, dão boa conta disso.

A maioria das pessoas que fazem este pernicioso hábito reconhecem que jamais dedicariam essas palavras de um amigo, no caso de que este se encontra diante de uma situação equivalente, e que nesse caso tentaria ser mais compreensivo e de ajudá-lo a reinterpretar os fatos para que fosse menos cruel. Esta seria a atitude socialmente mais aceita, mas que muito raramente se pode observar quando tais palavras são dirigidas à própria adversidade.

A bondade consiste em projetar o mesmo carinho e compreensão que dedicamos aos outros em relação a nós mesmos, a fim de que possamos nos tratar como se fôssemos o melhor de nossos amigos. Para isso, é necessária uma reformulação da dinâmica do pensamento, para mudar as palavras nocivas a outros termos diferentes, que possam ter laços profundos com afetos positivos que nos permitam viver melhor e mais felizes.

2. Falibilidade

A falibilidade é a capacidade de reconhecer a si mesmo como um ser que pode cometer erros, suscetível de falhar e/ou de tomar decisões erradas, ou que, em geral, é simplesmente imperfeito. Trata-se de aceitar que, às vezes, as expectativas que foram traçado para a vida podem não ser cumpridas (por motivos diferentes). Com isso se evitaria o surgimento do “deverá”, pensamentos muito rígidas sobre como deveriam ser as coisas.

Vivemos atenazados por múltiplos estímulos que nos lembram o imperfeitos que somos, mas que nos forçam a revelar-nos contra isso. Quando folheamos uma revista, ou quando vemos a TV, contemplamos corpos perfeitos e vidas cheias de sucesso. Esta selvagem exposição, planejada com fins puramente comerciais, pode ser traduzida como julgamentos comparativos em que costumamos por tudo a perder.

No pior dos extremos, esta circunstância pode nos levar a considerar que nossos problemas são realmente únicos, e que ninguém mais cometer os erros que nós, infelizmente, cometes. Até mesmo as redes sociais, em que seus usuários tendem a colocar o melhor que lhes acontece (obviando os momentos desagradáveis também fazem parte do viver), contribuem para a formação dessa imagem negativa sobre a nossa própria imperfeição.

O certo, todavia, é que a imperfeição é um elemento comum a todas as pessoas. Desde o cantor mais popular o ator mais talentoso, todos passando por momentos de cinza que podem estender-se por longos períodos de tempo. É por isso que o fato de sermos imperfeitos é uma qualidade inerente ao ser humano, e que dota de um peculiar valor a individualidade de cada um.

3. Atenção plena

A atenção plena é o terceiro elemento da autocomiseração. Sendo uma tradução literal de Mindfulness, o qual faz referência a uma prática de meditação, cujas raízes se afundam em antigas tradições monásticas do budismo. Constitui uma série de hábitos que se baseiam na vida contemplativa e de compaixão. Mas que adicionam um componente ativo a experiência de estar conscientemente presente no momento em que se vive.

A atenção implica uma forma concreta de enfrentar os fatos que suprime o juízo sobre os mesmos. Pois este muitas vezes nos afasta de como são na realidade. Supõe uma nova visão, de aprendiz, a que por um momento se abandonam os automatismos da mente para aprofundar aquilo que nos envolve, percebendo plenamente o que são as coisas, ao abrir mão de qualquer tentativa de as rotular ou classificá-las.

Além disso, a atenção plena tem como fim ou finalidade chamar a atenção para o que está no presente, obviando influências do passado e expectativas do futuro. Implica assumir uma mente de testemunha que observa os processos internos, diluindo a associação que nos vincula ao pensamento, e que faz com que nós nos identificarmos com ele. Isto é: uma filosofia de vida em que deixamos a tendência a acreditar que somos “o pensamento”. Para tomar o papel de um ser “que pensa”, mas que é muito mais do que isso.

Este conceito está dirigido a questionarmos a validade dos pensamentos autopunitivos, observando-os com certa distância para não nos deixar arrastar pela corrente emocional que costumam aprisionar-nos. Esta disposição, junto à prática paciente da bondade e da integração da imperfeição como uma realidade inerente a todos os seres humanos, é a chave para uma forma compassiva de interagir com nós mesmos.

Efeitos benéficos de ter compaixão por si mesmo

Existe um grande interesse na literatura científica por identificar, descrever, medir e quantificar os benefícios associados à autocomiseração. Com benefícios em termos de qualidade de vida e redução do desconforto. Por este motivo, os últimos anos têm sido testemunhas de um crescente número de estudos voltados a explorar esses fenômenos. Que se estenderam a vários domínios do saber humano: a Psicologia, a Medicina, a Educação, etc.

Existem programas voltados ao estímulo da auto-piedade, os quais foram submetidos a análise para determinar seus efeitos. Neste sentido, alguns estudos recentes indicam que os que decidem embarcar neste processo terapêutico melhoram a capacidade para discriminar a dor que emerge como resultado de seus pensamentos negativos. Reconhecendo o modo em que a ausência de compaixão trará em sua vida emocional.

Este reconhecimento mobiliza uma série de mudanças na percepção que se tem não apenas sobre o ser humano em geral. Mas também sobre o indivíduo em particular, no que diz respeito à imperfeição. Este tipo de práticas supõe conceber uma visão mais gentil com nós mesmos. A qual facilita o processamento da experiência emocional e reduz o risco de sofrer problemas afetivos de significação clínica. Este efeito foi reproduzido em pessoas vulneráveis à psicopatologia da compaixão.

Conheça a si mesmo

A autocomiseração também tem um efeito positivo na qualidade de vida relacionada com a saúde. Um conceito que abrange o bem-estar geral do indivíduo. Que diz respeito ao modo em que percebe o funcionamento de seu corpo e de sua mente. Mas ambos integrados em um espaço social e cultural que lhe é próprio.

Em suma, uma atitude compassiva nos permite ser mais justos com quem somos, com nossas imperfeições, e com nossas limitações. Também nos dá uma visão mais precisa da nossa realidade emocional. Mas podendo ser conscientes dela sem que nos sature a sua intensidade, e permite-nos usar uma linguagem mais amigável, quando nos dirigimos a nós mesmos. Tudo isso resulta em um aumento da auto-estima e uma redução do risco de sofrer distúrbios psicológicos.

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